18º In-Edit: “The Last Critic”, “Everywhere Man: The Lives And Times Of Peter Asher”, “Flora & Airto – O Som Revolucionário”

textos de Gabriel Farina

“The Last Critic”, de Matty Wishnow (2025)
Uma ode à crítica especializada em um mundo onde todo mundo é crítico, “The Last Critic” traz Robert Christgau vestindo sua extensa e autoproclamada alcunha de “Decano dos Críticos de Rock Estadunidenses” e relacionando a música com o mundo em forma de palavra. Um dos grandes nomes da crítica musical, sempre técnico e quase lírico, Bob, como é chamado por seus admiradores mais íntimos ao longo do documentário, é retratado aqui como um grande fã. Ele escolhe uma camiseta da pouco conhecida Wussy para falar sobre si mesmo; depois, faz questão de dizer que essa é sua banda favorita, escolhe uma faixa do álbum “Funeral Dress” e a ouve enquanto balança a cabeça, O longa de Matty Wishnow quer entender por que a opinião de uns é mais importante que a de outros. Importante o suficiente, Robert Christgau mantém um antecipado “Consumer Guide” desde 1969 com seu nome, foi desejado de morte por Thurston Moore em “Kill Yr Idols”, do Sonic Youth, e foi alvo de um famoso discurso raivoso de Lou Reed pelo uso de notas em suas críticas: “Can you imagine working for a fucking year and you get a B+ from some asshole in The Village Voice?” ou “Consegue imaginar trabalhar a porra de um ano inteiro e ganhar um B+ de um cuzão do Village Voice?” (em tradução livre, durante “Walk on the Wild Side”, no álbum ao vivo “Take No Prisoners”, de 1978). Nessa nossa era, em que o Village Voice não mais existe e qualquer “asshole” com acesso à seção de comentários vira crítico, profanando suas opiniões autoimportantes para o algoritmo, a crítica musical séria continua como tradição. Aqui, alguns de seus perpetuadores, como Nelson George e Amanda Petrusich, aparecem lendo textos christgauianos. Greil Marcus faz uma participação bastante importante no longa ao oferecer um contraponto e um complemento à história da era de ouro da crítica de rock. Os primeiros e os últimos críticos. O documentário não é otimista para um mundo sem Robert Christgau: estamos vivendo nos escombros. Quem fizer a última crítica da crítica que apague as luzes.


“Everywhere Man: The Lives And Times Of Peter Asher”, de Dan Geller & Dayna Goldfine (2025)
Peter Asher é um dos grandes nomes da música popular do século XX. É absurdo que se pense nele como o uma-vez-cunhado de Paul McCartney. Também é absurdo lembrá-lo apenas como a segunda metade da dupla pop sessentista Peter & Gordon. Como produtor, Peter definiu o som da Laurel Canyon nos anos 1970. Foi um dos únicos produtores a aparecer na capa da Rolling Stone, e o fez ao lado de seus empresariados James Taylor e Linda Ronstadt, em uma linda foto de Annie Leibovitz acompanhando um texto de Ben Fong-Torres. Mas, sim, o documentário gasta uma grande quantidade de tempo na relação de Peter com os Beatles. Afinal, além de irmão de Jane Asher, foi com as músicas de Paul que Peter & Gordon tiveram seus maiores sucessos, fazendo deles um dos atos mais intimamente ligados à beatlemania. O longa assume a função de documentar a importância que Peter Asher teve na cultura popular e na contracultura, sempre secular. Junto com John Dunbar e Barry Miles, Peter fundou a Indica, símbolo dos Swinging Sixties e lugar onde John Lennon se apaixonou por Yoko Ono. São bonitas as cenas com os comentários que faz Eric Idle junto a Peter, como um contextualizador da Bretanha de sua época. São cenas rápidas adornadas por comida, que injetam serotonina no cérebro que reconhece uma geração cujos alguns de seus expoentes ainda estão neste nosso mundo, fazendo brunches e contando histórias. Há muita música aqui. Cada personagem tem uma importância histórica muito grande — lindo é ver Linda Ronstadt em entrevista para o longa, acometida há anos com Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP). O carisma de Peter conduz tudo por um grande museu onde o infinito vai a julgamento — como disse Dylan. Algo quase não mencionado no longa é sua participação em “Canciones de Mi Padre”, álbum de Ronstadt lançado em 1987 que, até hoje, é o disco em língua estrangeira mais vendido dos Estados Unidos. É mais discutida, porém, quase como uma fofoca de 60 anos, sua participação no encontro de Marianne Faithfull e Mick Jagger. Dois grandiosos acontecimentos musicais do século XX. Ambos com a participação de Peter Asher.


“Flora & Airto – O Som Revolucionário”, de Jom Tob Azulay (2026)
Eis um filme sobre o passar do tempo, que fala pouco ou quase nada sobre o passado. Mas também é um filme sobre o amor, que fala pouco ou quase nada sobre o relacionamento dos dois. “Flora & Airto – O Som Revolucionário” pouco fala, na verdade. Ele prefere mostrar a música, a sua construção, e deixar que ela fale aquilo que é muito melhor não dizer. Porque é um filme sobre música. É como Miles dizia sobre as ‘liner notes’ de seus álbuns: “É melhor deixar a música falar por si”. O documentário de Jom Tob Azulay acompanha a gravação de um álbum ainda inédito, espécie de irmão de “Maracanós”, lançado neste ano. Ambos foram realizados em parceria com Ricardo Bacelar, embora o disco mostrado no filme tenha sido gravado posteriormente. Existe um espírito de registro, visto nos documentários de cinéma vérité, que é sempre subordinado a mostrar as músicas em gravação, quase como números musicais por si só. No meio delas, vemos um casal que vive a música como se ela fosse inevitável, em um puro delírio existencial. Não como se fosse “uma trip de ácido”, algo que Flora quis evitar ao falar da gravação de uma das canções. Nem como se fosse trivial, e muito menos simples. A música é necessária e, em algumas instâncias, até natural. Ela exige entrega e artifício. Aqui, Flora Purim, aos 84 anos, crava sua voz contra o tempo e julga cada nota lançada ao ar como se existisse, sim, uma dualidade entre certo e errado no mundo. Aqui, Airto Moreira, também aos 84 anos, luta contra um corpo marcado pelas sequelas de uma grave pneumonia para sustentar cada compasso suspenso no ar. No fim, tempo, amor e música parecem a mesma coisa.

Gabriel Farina é jornalista e fotógrafo. Acompanhe seu trabalho em https://www.behance.net/gabrielfarina2

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